Ilha africana “memória da escravidão” conta com turismo para ter renda
Os africanos que resistiam à travessia transoceânica tinham como fim uma vida de escravizado em locais como Brasil, Estados Unidos, Cuba, Haiti e no Caribe.
Em Gorée fica a Casa dos Escravos, construção de dois andares onde os africanos eram mantidos aprisionados antes de passar pela expressiva “Porta do Não Retorno”. Hoje o local é o centro mais palpitante da ilha e exerce a função de memória da escravidão.
A Agência Brasil já havia estado neste Patrimônio da Humanidade em 2023 e relatou em detalhes a visita à ilha.
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Atualmente, Gorée tem cerca de 1,7 mil moradores, de acordo com o censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD, na sigla em francês), que equivale ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A vendedora Fama Sylla em frente à sua loja na Ilha de Gorée – Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil
Com o turismo, vem a renda
No fim de abril, um mês depois de as Nações Unidas terem declarado a escravidão de africanos como o mais grave crime já cometido contra a humanidade, a Agência Brasil voltou a Gorée e constatou que, para os menos de 2 mil moradores, o fluxo de dezenas de milhares de turistas que visitam a ilha anualmente é a oportunidade de conseguir alguma forma de ocupação e renda.
Já na ilha, Fama Sylla, a senegalesa que abordava visitantes ainda na fila do porto, deixa explícito o porquê do interesse em conseguir clientes.
“O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso, vivemos do turismo”, conta.
Ela relata que o ponto de venda ─ muito parecido com as baias comuns em galpões e galerias que vendem artesanato no Brasil ─ é uma tradição da família.
“Temos uma loja que era da minha avó. Isso continua até hoje, passou para minha mãe e para nós, os filhos”, diz.
Bem perto do cais onde desembarcam os visitantes, Chaua Sall vende esculturas de madeira tradicionais do país. Algumas retratam animais emblemáticos do continente africano, como girafa e hipopótamo.
“Quero vender coisas bonitas para as pessoas”, diz ele, que veste um boubou, espécie de túnica tradicional na África Ocidental.
“Aqui você recebe turistas de vários lugares: França, Espanha, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Itália – pessoas do mundo todo vêm para a Ilha de Gorée”, lista Chaua. Além dele, o filho e o irmão também vivem do turismo em Gorée.
Chaua Sall vende peças de artesanato na Ilha de Gorée – Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil
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Hospitalidade para atrair turistas
Aminata Fall tem uma estratégia para conquistar a atenção de turistas estrangeiros que circulam pela ilha. “Bom dia”, diz ela em português.
A vendedora aprendeu saudações e expressões em diversos idiomas. Uma forma de puxar assunto com os visitantes de fora do Senegal. No país, os idiomas falados são o francês ─ oficial, legado da colonização europeia ─ e o wolof, de raiz africana, muito falado nas ruas.
A vendedora Aminata Fall trabalha com acessórios típicos na Ilha de Gorée – Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil
Ela conta que as únicas atividades econômicas do lugar são a pesca e o turismo. “As mulheres têm lojas, e os homens pescam ou trabalham como guias turísticos. É assim que trabalhamos aqui nessa pequena Ilha de Gorée. Não temos fábricas, nada além de turismo e pesca”, constata.
Ela enfatiza uma das principais características do povo de Gorée. “Somos muito gentis e acolhedores com pessoas do mundo todo que vêm visitar a Casa dos Escravos. E, depois da visita, se tiverem tempo, não as obrigamos a ir ao mercado, mas, se quiserem, podem passar lá para ver o que fazemos”, diz ela.
A característica citada por Aminata é algo que ultrapassa os limites da ilha e se espalha por todo o Senegal. Aliás, a seleção de futebol, que em 16 de junho estreará na sua quarta Copa do Mundo, é conhecida como “Leões de Teranga”.
Teranga é uma palavra do wolof que define a hospitalidade e o carisma dos senegaleses.
Arte tradicional
Um dos tours guiados por Gorée passa sempre no ateliê de Cheikh Sow. Ele utiliza uma técnica que combina cola e uma espécie de serragem em diversas cores para fazer quadros com paisagens e representações típicas africanas.
A demonstração “ao vivo” é uma oportunidade de convencer o turista a levar um exemplar.
“Eu sou artista e deixei tudo para viver da pintura, para ganhar a vida com quadros, porque meus pais não tinham condições suficientes para nos sustentar”, conta em entrevista à Agência Brasil.
“Por isso, preferi estudar na escola de belas-artes e, assim, consigo ganhar a vida”, diz.
“Também temos mulheres, temos filhos, e, com essas pinturas, até tentamos construir casas para viver melhor. A ilha é realmente calma e tranquila, não há grandes problemas, como a poluição”, completa ele, que trabalha com outras pessoas no ateliê.
“Em relação à escravidão, procuramos deixar isso no passado. O essencial, para nós, jovens da ilha, é tentar todos os dias ganhar a vida da melhor maneira possível, sempre pelo caminho certo. É assim que vivemos hoje”, finaliza.
Cheikh Sow, vendedor de quadros na Ilha de Gorée – Foto: Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil
O guia Mamadou Bailo Diallo é mais um senegalês que vive do turismo. Ele conta que faz de um a dois tours guiados pela ilha diariamente.