quinta-feira, 3 de abril de 2025

Funcionários da Caixa apontam crises de saúde mental e luta por direitos

por Redação

Publicado em 02/04/2025,

às 11h00

O alto índice de adoecimento mental entre trabalhadores do sistema bancário no Brasil tem gerado preocupação na categoria e de órgãos sindicais. Dados da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) indicam que 80% dos trabalhadores do setor relataram ter enfrentado pelo menos um problema de saúde relacionado ao trabalho. Destes, quase metade buscaram acompanhamento psiquiátrico, e 91,5% receberam prescrição de medicamentos. A pesquisa, realizada em 2024, entrevistou 5.803 bancários de todo o Brasil, sendo 50,7% mulheres e 48,3% homens.

Na Caixa Econômica Federal (Caixa), a situação é alarmante e preocupa órgãos fiscalizadores. Entre 2012 e 2022, houve um aumento de 135% nos afastamentos por doenças mentais. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em 2022 foram registrados 395 afastamentos, o maior número da série histórica desde 2012. Do total de afastamentos acidentários, 73% estavam relacionados a transtornos mentais e comportamentais. No Distrito Federal, foram 35 casos apenas naquele ano.

O presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), Sérgio Takemoto, alerta que os dados podem ser ainda maiores devido à subnotificação. “Muitos afastamentos por doença mental são classificados como acidentes de trabalho pelo código B91, mas há uma grande subnotificação. Por isso, os números divulgados estão muito abaixo da realidade”, afirma. O código B91, utilizado pelo INSS, se refere a doenças ocupacionais relacionadas diretamente às atividades laborais.

Takemoto atribui o crescente adoecimento dos funcionários à pressão diária por metas e ao modelo de gestão do banco. “Os bancos têm registrado lucros recordes, mas isso ocorre às custas da saúde dos empregados”, diz. Ele critica também o impacto da estrutura organizacional da Caixa, que cria uma dependência extrema dos empregados em relação aos seus cargos. “Quando um funcionário assume um cargo gerencial, seu salário pode triplicar ou quadruplicar. Mas, se ele perde essa função, volta ao salário base. Isso gera uma pressão constante para entregar resultados, o que leva ao adoecimento”.

A cultura de assédio também agrava o problema. Takemoto relembra o caso de assédio sexual envolvendo o vice-presidente da Caixa, Antônio Carlos Sousa, em 2022. “Passamos por uma gestão muito grave. Tivemos casos de assédio sexual e moral, o que gerou traumas, afastamentos e desgastes. Era uma prática incentivada pela alta gestão. O assédio moral era quase institucionalizado”, denuncia.

A Fenae também aponta a falta de interesse da alta gestão da Caixa em combater essa cultura do assédio, bem como criar programas voltados à qualidade de vida no trabalho, com foco na saúde mental.

“Discutimos o assédio com a Caixa há muito tempo, mas não vemos avanço. As empresas querem apenas resultados rápidos, sem considerar o impacto na vida dos trabalhadores”, afirma Takemoto.

Dados nacionais
Pesquisa do Contraf-CUT sobre “Gestão e Patologias do Trabalho Bancário” , realizado em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) revelaram que modelos de gestão dos bancos e relações de trabalho são as principais responsáveis pelo alto índice de transtornos mentais graves da categoria no país, como depressão, e em casos extremos, suicídio.

Reivindicação por melhorias no Saúde Caixa
Diante dos elevados índices de afastamento, queda na qualidade do plano de saúde do banco e o alto custo desse plano para os empregados, os funcionários da Caixa, com apoio da Fenae e Contraf-CUT, têm cobrado melhorias no plano de saúde da instituição, o Saúde Caixa. São cerca de 274 mil pessoas atendidas, entre empregados, aposentados e dependentes.

Em 2004, a Caixa se comprometeu a custear 70% do plano, enquanto os empregados arcariam com os 30% restantes. No entanto, após 2016, a empresa limitou sua contribuição a 6,5% da folha de pagamento, resultando em uma divisão de custos de 50% para cada parte. A categoria luta pela recomposição do acordo original e por mais transparência na gestão do plano. “Nada mais justo que os empregados sejam ouvidos, já que também contribuem para o custeio”, destaca Takemoto.

Apesar da existência do Conselho de Usuários do Saúde Caixa e da criação de Grupos de Trabalho da categoria, a Caixa tem restringido o acesso a informações essenciais sobre custos e qualidade do atendimento do plano. “A Caixa não tem aberto os números do plano, nem permitido uma participação efetiva dos funcionários. Dados essenciais, como custos e qualidade do atendimento, continuam sendo uma grande caixa-preta para nós, acessíveis apenas à empresa”, afirma.

Abaixo-assinado
Em janeiro deste ano, a aposentada Elisabete Moreira, que trabalhou na Caixa por 25 anos, liderou uma mobilização para exigir um plano de saúde eficiente, acessível e de qualidade. Seu abaixo-assinado, direcionado à Presidência do banco, reuniu 25.998 assinaturas até a publicação desta matéria.

O documento denuncia problemas na terceirização dos serviços do plano, que reduz custos às custas da qualidade do atendimento. Também aponta a falta de comunicação eficiente entre os prestadores de serviço e o plano, bem como a deficiência na comunicação da junta médica com os beneficiários, que frequentemente recebem mensagens genéricas e pouco esclarecedoras.

“A Central de Atendimento precisa seguir as regras da Agência Nacional de Saúde, mas, com a terceirização, a qualidade caiu muito”, lamenta Elisabete.

O abaixo-assinado foi entregue à diretoria da Caixa em 25 de março, pela Fenae, Confra-CUT e pela representação dos empregados no Conselho de Administração da Caixa. Entre as reivindicações da categoria também estavam o combate ao assédio moral, melhorias na estrutura das Gerências de Filial de Gestão de Pessoas, a instalação de comitês regionais para credenciamento de prestadores e a revisão das mensalidades do plano de saúde.

“Tivemos a promessa de abertura ao diálogo e negociação. Acreditamos que avançaremos, mas sabemos que só seremos ouvidos com o apoio dos empregados”, conclui Takemoto.

O que a Caixa diz?
Em nota a Caixa respondeu que, em 2023, atingiu a menor taxa de absenteísmo do setor bancário (3,18%), conforme destacado nos relatórios de sustentabilidade do banco e nos relatórios das demais instituições. O percentual é 13,59% menor que a taxa observada em 2022, que foi de 3,68%.

Ainda disse que o banco atua na promoção da saúde e da qualidade de vida por meio da gestão estratégica de programas e ações destinadas aos empregados, com foco principal na prevenção e manutenção da saúde. Destacando os programas de saúde e qualidade de vida como a vacinação antigripal; o Programa de Nutrição e Hábitos Saudáveis, entre outros.

Segundo a nota, em 2024, essas ações alcançaram 82,47% do quadro de empregados do banco e que Saúde Caixa também desenvolve projeto focado na promoção e prevenção à saúde dos beneficiários, especialmente aqueles portadores de doenças crônicas. Ressaltam ainda, que o banco assegura transparência e diálogo com os funcionários na gestão do Saúde Caixa. Para isso, os números do plano são amplamente divulgados através dos Relatórios de Administração, publicados anualmente aos beneficiários no site da Central de Atendimento do Saúde Caixa.

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