Denúncias durante os 50 dias de campanha (16/8-4/10) somaram 134 episódios até o 1º turno. Das vítimas, 70 eram mulheres (52,2%); entre 102 ataques a candidaturas, 60 tiveram alvos femininos (58,8%).
Denúncias feitas durante a campanha eleitoral de 2026 revelaram um quadro de violência política que atingiu com maior intensidade as mulheres: foram 134 episódios mapeados até o primeiro turno, com 70 vítimas do sexo feminino, o equivalente a 52,2% do total.
As agressões ocorreram ao longo dos 50 dias oficiais de campanha, iniciados em 16 de agosto e encerrados no primeiro turno em 4 de outubro. O levantamento apontou uma média de um caso a cada nove horas nesse período e indicou que, entre 102 episódios dirigidos exclusivamente a candidaturas, 60 tiveram mulheres como alvo (58,8%), embora elas representassem cerca de um terço das candidaturas.
Do total de 134 episódios, 71 aconteceram nas ruas. A ameaça foi o tipo mais recorrente, com 64 ocorrências, seguida por 33 ofensas e 19 agressões físicas. Foram também registrados 11 atentados, cinco casos de criminalização e duas mortes — ambos de agentes ligados à esfera municipal, um vereador e um secretário municipal. Entre os 32 episódios classificados como violência física (agressões, atentados e assassinatos), as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos. Já entre os 97 episódios de violência simbólica (ameaças e ofensas), as mulheres corresponderam a 61,9% (60 casos).
Entre as 70 ocorrências contra mulheres, a pesquisa identificou manifestação de machismo ou misoginia em 45 casos, racismo em nove e transfobia em cinco. As sete ameaças de violência sexual foram direcionadas exclusivamente a mulheres.
O levantamento também destacou a presença expressiva de vítimas negras: 60 pessoas negras representaram 44,8% do total. Entre as mulheres vítimas, 19 eram pretas, mais de uma em cada quatro.
Quanto aos autores, em 26 episódios (19,4% do total) o responsável identificado era agente público; pelo menos 14 eram parlamentares ou governantes e sete eram agentes de segurança. A pesquisa apontou ainda que nenhum dos 134 episódios contabilizados tinha resultado em punição até o encerramento da coleta de dados, embora em pelo menos oito casos tenham sido adotadas medidas de urgência, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas.
“É necessário uma força-tarefa do Estado para dar respostas mais rápidas contra essas violências”,
A coordenadora responsável pelo levantamento alertou que a cifra de 134 é provavelmente subestimada, por se basear principalmente em registros tornados públicos e por haver subnotificação — muitas vítimas deixam de denunciar por medo ou por falta de respostas efetivas das autoridades policiais. A pesquisadora afirmou que são necessárias providências e punições ágeis com caráter pedagógico, diante do impacto dessa violência sobre a democracia.
“Esse cenário de hostilidade, além de intimidar, gera rupturas profundas no nosso sistema democrático exigindo do Estado uma resposta firme e proporcional à gravidade da situação”,
Em comparação com o primeiro turno de 2022, quando foram registrados 121 casos, o número de 2026 mostrou aumento. A pesquisa também apontou que a violência política foi cinco vezes mais frequente no período eleitoral do que em tempos sem disputa, quando a média foi de uma ocorrência a cada 44 horas.
“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”,
As unidades federativas com mais registros foram São Paulo (16), Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10). Pesquisadores e observadores apontaram como próximo passo a necessidade de atuação coordenada do Estado para investigar, punir e prevenir a violência política, em especial as agressões de gênero que desestimulam a participação política de mulheres e pessoas de grupos minoritários.