Os planos de governo expõem visões distintas: o candidato do PT dedica quase seis páginas à política externa, enquanto o do PL reserva cerca de três. Ambos relacionam diplomacia e defesa e apresentam diagnósticos críticos.
Os planos de governo dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) traçam caminhos distintos para a política externa: Lula aponta para o fortalecimento das relações com o Sul Global e a diversificação de parcerias, enquanto o plano de Flávio defende maior aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina.
No material dedicado ao tema, o candidato do PT reservou quase seis páginas para política externa; o candidato do PL destinou cerca de três páginas ao assunto. Ambos tratam ainda da relação entre política externa e defesa nacional e apresentam diagnósticos críticos sobre ações de governos estrangeiros e escolhas diplomáticas recentes.
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas.”
O trecho acima consta do plano do candidato do PT, que também descreve um cenário internacional de “conflitos sem precedentes” desde a Segunda Guerra Mundial e defende uma política externa que seja, no termo do documento, “universalista”, com diálogo e parcerias em todas as regiões.
“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia.”
Frase do plano de Flávio Bolsonaro que critica posições do governo atual em relação a países como Irã, Venezuela e Israel. No documento do PL, a soberania é apresentada como algo que se exerce “na prática” e não por meio de posturas retóricas, e há a promessa de negociar com parceiros diversos para abrir mercados e atrair investimentos.
Defesa e indústria militar
O plano do PT vincula política externa e defesa, argumentando que não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa. O documento cita medidas do mandato em curso para fortalecer a defesa:
- R$ 20,4 bilhões — montante executado desde 2023 em projetos estratégicos;
- 7 caças Gripen F-39 — entregues, com a primeira aeronave produzida em solo brasileiro este ano;
- 3 cargueiros KC-390 — adquiridos e fabricados no país;
- 4 fragatas — em construção, com a primeira já em operação;
- 226 viaturas blindadas — produzidas.
O plano do PL também relaciona defesa e política externa e anuncia estímulo a tecnologias militares, com foco em drones e inteligência artificial, e investimentos compatíveis com a inserção do Brasil em blocos e grupos internacionais.
Blocos e parcerias
O documento do PT destaca o aprofundamento da aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, além da atuação no G20, como espaços para afirmar interesses de países em desenvolvimento e da maioria da humanidade. O plano afirma também a intenção de aprofundar relações com a África, reconhecendo laços históricos e culturais.
G20
- Inclui União Europeia e União Africana, além de países como EUA, França, Alemanha, Japão e Coreia do Sul.
Brics
- Reúne Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã (conforme o texto do plano).
Em contraponto, o plano de Flávio Bolsonaro enumera a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina como prioridades e defende negociações amplas com atores que interessem ao Brasil, da China à União Europeia, sempre orientadas pelo interesse nacional.
O tema da política externa tem sido destaque na campanha e aparece em capítulos específicos dos planos de governo, com propostas que devem alimentar o debate público e as negociações internacionais caso um dos projetos avance. A disputa entre percentuais de ênfase nos documentos e os diferentes vetores de aproximação geopolítica mostram que o posicionamento diplomático será ponto central na agenda de ambos os candidatos durante a campanha.