Em fórum em San José (6-8 out.), especialistas dizem que a nova lei para pesquisas ampliou a participação do Brasil em estudos globais e atrai novos investimentos. Interfarma aponta salto do país do 18º ao 12º em testes.
O marco legal para pesquisas clínicas no Brasil está impulsionando a entrada do país em estudos globais e aumentando investimentos previstos na área, segundo participantes de um fórum internacional realizado em San José, Costa Rica, entre 6 e 8 de outubro. Dados de associação do setor apontam avanço no ranking mundial e projeção de aportes bilionários anuais.
Relatórios da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) indicam que a posição do Brasil no ranking de países que mais realizam testes clínicos subiu da 18ª para a 12ª, no período de 2025 até o primeiro semestre de 2026. A entidade projeta que a 10ª posição poderá ser alcançada em pouco tempo, com novos investimentos previstos superiores a R$ 2 bilhões por ano.
A Lei 14.874, conhecida como Lei de Pesquisa Clínica, foi sancionada em maio de 2024 e regulamentada pelo governo federal em outubro de 2025. É o primeiro marco legal específico para a atividade no país, que antes se baseava somente em normas do Conselho Nacional de Saúde e da Anvisa. A nova norma criou o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, reorganizou fluxos de trabalho dos comitês e encurtou prazos de análise: o parecer ético deve ser emitido em até 30 dias úteis e a avaliação da Anvisa em até 90 dias úteis, excluídos prazos de recurso e esclarecimentos.
Representantes da indústria destacaram que, em estudos multicêntricos, os processos ético e sanitário poderão tramitar em paralelo, acelerando o início das pesquisas. A maior atratividade do país também se apoia na diversidade genética da população, que torna os resultados aplicáveis a diferentes grupos.
“Vamos supor que tem dez centros participando de um estudo. Antes a gente precisava da aprovação do comitê de ética local de cada centro de pesquisa. Agora um comitê acreditado é responsável por fazer a comunicação com os demais e dar o parecer final”
“A Anvisa é uma das agências mais renomadas, é referência no mundo inteiro. A gente ainda tem alguns gargalos de fila (de processos para análise), mas todas as questões estão sendo trabalhadas. Hoje, a gente tem um excelente processo”
No plano de investimentos, uma farmacêutica informou que pretende aplicar cerca de R$ 590 milhões por ano em pesquisas no Brasil. Entre os estudos já em andamento ou previstos no país estão testes para tratamentos de Alzheimer, Parkinson, câncer de mama, lúpus e uma nova opção de caneta emagrecedora.
A indústria vem direcionando recursos também para capacitação de centros nas regiões Norte e Nordeste, com objetivo de reduzir a concentração no Sul e Sudeste e ampliar diversidade genética, social e cultural nos estudos. Especialistas ressaltaram a necessidade de estruturar equipes e formar carreiras para coordenadores e monitores de pesquisa.
“É um movimento de união com centros de pesquisa, laboratórios. Com essa projeção e a vinda de novos estudos, existe a necessidade de capacitar os profissionais e as unidades”
“Temos um desafio muito importante, porque nem sempre contamos com coordenadores e monitores de pesquisa. Não existem carreiras profissionais específicas para essas funções e precisamos desenvolver essa estrutura ao longo do tempo”
“Proporciona ferramentas para melhorar a qualidade da assistência”
O Programa Nacional de Inovação em Saúde, lançado em julho pelo governo federal, foi citado como instrumento que poderá fortalecer a base científica nacional, integrar o setor produtivo e incentivar tecnologias de interesse do Sistema Único de Saúde. Com a legislação e os investimentos, o Brasil deverá continuar ampliando sua participação em ensaios clínicos globais e profissionalizando a infraestrutura local, com impactos diretos no desenvolvimento científico e no acesso a novas terapias.