quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Mudança de locais dificulta votação de 17 mil eleitores na Maré

Mudança de locais dificulta votação de 17 mil eleitores na Maré

por R2Sites

Publicado em 21/10/2026,

às 00h00

No 1º turno, em 4 de outubro, cerca de 17 mil eleitores da Maré tiveram o local de votação alterado. Moradores relatam dificuldade de acesso; Rejane Barcelos foi enviada a uma igreja em outro bairro.

Moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, relataram dificuldades para acessar os novos locais de votação no primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Cerca de 17 mil eleitores do conjunto de comunidades tiveram o local de votação alterado em relação ao pleito de 2024, segundo levantamento sobre o processo.

Um dos casos relatados foi o de Rejane Barcelos, moradora da Vila do João, que costumava votar em uma escola próxima de casa e foi direcionada para uma igreja em outro bairro.

“Eu votava numa escola perto da minha casa, e aí, quando eu fui ver, que eu fui conferir, falaram que tinham tirado as zonas eleitorais lá da Vila do João, que tinha mudado lá para a Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso. Eu nunca tinha ido nessa igreja. E lá não passa ônibus perto, não passa nada perto. Ainda bem que eu tinha um dinheirinho para poder pedir um Uber.”

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) informou que a alteração dos locais de votação teve como objetivo retirar seções eleitorais de áreas consideradas de alto risco ou dominadas por organizações criminosas. Segundo o TRE, os novos locais ficam fora de áreas controladas pelo tráfico de drogas ou por milícias, afastados de territórios dominados por facções rivais e o mais próximo possível de cada local substituído.

No estado, 72 locais de votação foram alterados em relação a 2024 por questões de segurança. As mudanças ocorreram em 20 cidades e atingiram cerca de 202 mil eleitores. Em relação ao primeiro turno das eleições de 2026, o Rio de Janeiro terá alteração em apenas um endereço: no bairro de Brás de Pina, na zona norte da capital (seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª zona eleitoral), segundo comunicado do TRE.

Levantamento com base nos boletins de urna apontou que a abstenção nas 41 seções eleitorais da Maré que tiveram o endereço transferido chegou a cerca de 31%, acima dos aproximadamente 21% da média nacional. O estudo “Como vota a Maré”, elaborado pela organização não governamental Redes da Maré, ressaltou que os dados não permitem estabelecer relação causal direta entre a mudança dos locais e a abstenção, sobretudo diante do crescimento do eleitorado, mas que os números reforçam a preocupação com as barreiras de acesso produzidas pelos deslocamentos para fora do território.

A análise da ONG comparou os percentuais e apontou que a abstenção deste ano foi maior que a de 2024, quando chegou a 28%, e registrou que, em quatro anos, 50% dos eleitores tiveram novos pontos de exercício do voto. A instituição destacou que o impacto envolve principalmente questões de acessibilidade e mobilidade urbana, ao alterar rotas de deslocamento entre residências e seções eleitorais.

Para orientar moradores e tentar reduzir a abstenção, a Redes da Maré realiza até sexta-feira (23) a mobilização “Esquinas por Direitos”, conversando com moradores sobre o direito ao voto e sobre participação democrática.

“O trabalho da Redes da Maré, nesse momento, é estar nas ruas, é trazer a dinâmica do debate sobre o voto, do debate sobre a participação e a importância da participação democrática exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa. Não só porque é um direito individual, mas porque é um direito individual que impacta coletivamente o território e a vida de todas nós. Então, por isso que a gente achou esse lugar de convergência, que são as ruas, que são as esquinas, para estar conversando e colocando para as pessoas também algumas perguntas para que elas tenham repertório e ferramentas para decidirem sobre o seu voto e sobre o direito e a expressão desse direito ao voto.”

A ONG também divulga informações sobre o voto pelas redes sociais, esclarecendo que quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no próximo domingo (25), inclusive eleitores que ainda não têm biometria cadastrada. Moradores ampliam a troca de informações sobre direitos democráticos por meio de aplicativos de mensagens, enquanto a mobilização de rua segue até o fim da semana na Maré.

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